O próximo distante

O próximo distante

Cada vez mais a resposta que encontro é a de que a vida é um desencontro!
Desencontro de ideias, desencontro de preocupações, desencontro de sentimentos, desencontro de emoções.
É constante a procura do que não se encontrará. E se se encontrar será pouco e desvalorizado, comparado com o que se procurará então para não encontrar.
Pessoas que são próximas num instante podem ser sempre as próximas distantes.
Na vida encontrarás sempre alguém: o teu próximo distante!

Carlos Walgood Santos

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Cliché do dia

(Pede-se a compreensão do leitor para o facto de este texto conter um teor elevado de sarcasmo e ironia. Quaisquer interpretações literais podem ter efeitos secundários altamente nocivos para o seu bem-estar. O autor deste texto não se responsabiliza por qualquer dano causado pela aplicação indevida do mesmo.)

Já tomou o seu cliché do dia? Não se esqueça que, para ter um belo dia de senso comum, é imperativo que tome, pelo menos, um cliché por dia. Não se aliene da alienação. Não perca tempo, corra para a televisão mais próxima e vá tomar a sua dose diária! Não seja pretensioso escolhendo um canal mais cultural que os outros. Não faça isso à sua saúde social! Existem tantas vias para aumentar os seus níveis de cliché, que só perde o senso comum quem quer, isto é, só deixa de ter amigos (centenas deles para tomar copos e não perder muito tempo em conversa. Só alegria e diversão!) e emprego, quem quer! E já lá vai o tempo limitado de encontrar clichés só na tv, não, agora existem a internet e as redes sociais, toda uma panóplia de clichés variados, exclusivamente, para si. Um cliché mais alegre, outro mais triste, um mais nostálgico, outro mais divertido. O problema agora é a escolha de qual o cliché mais indicado para determinado momento. Sente que precisa dar um rumo à sua vida? Sente que é pouco popular? Não perca mais tempo, tv, redes sociais, revistas, livros best-seller e muito mais, estão á sua espera. Escolha qualquer um deles, mas escolha! Faça algo pelos clichés e por si! Um cliché por dia, nem sabe o bem que lhe fazia!

Carlos Walgood Santos

Pequenos jogos de sons

Dois pequenos jogos de sons soltos que gostei mais entre os muitos que vou fazendo…

1-
Tudo é feito de fases. Tudo é efeito do que fazes
e das frases que trazes para essas mesmas fases!

2-

Mente oca mente

….loucamente

Sempre, a toda a gente

…ou pra dentro…

 

Carlos Walgood Santos

 

Sono chama, sono vem

Sono chama, sono vem

Sono chama, sono vem.
Sono canta, sono tem
todo o charme, eu notei.
Sono dança muito bem.

Sono chama, sono vem
sono engana, sono me tem
numa cama como refém.
Só me trama muito bem.

Sono chama, sono vem.
Sono proclama que é só do bem,
que só nos chama quando tem
sonhos para pôr-nos bem.

Sono chama, sono vem.
Sono engana, sono tem
uma cama e sou refém.
Sono manda e ouço-o bem!

Carlos Walgood Santos

Aqui, Sítio X, Proibição X

2014-03-18_23.22.50(desenho de Maria Roldão)

Aqui, Sítio X, Proibição X

Que queres tu? Aqui é proibido nada querer.
Qual o teu preço? Aqui é proibido nada vender.
Quem queres julgar? Aqui é proibido não fazê-lo.
Aqui. Onde julgas que quem não julga é julgado!

Aqui. Tudo aqui é inacreditavelmente perfeito.
Todo o conceito que venha de fora tem defeito.
Para quê algo novo? Tudo o que existe é perfeito!
Tudo o que não seja aceite nem conhecido, tem defeito!

É proibido diferir. É proibido não proibir.
Aqui: fazer é proibir; ouvir é proibir;
falar é proibir; ler é proibir; escrever é proibir;
Aqui, onde todos os verbos são o verbo proibir!

Aqui. O sítio em que te encontras no mapa.
Aqui. O sítio onde o teu verdadeiro ser é proibido.
Aqui…  casa, cidade ou País. Sítio X, proibição X!
O aqui é tudo o que és. Aqui em Roma sê romano.
Aqui, sítio X, onD’ÉS proibido ser humano!

Carlos Walgood Santos

 

As dissertações ignorantes sobre os refugiados

Para dar um pouco de vida a isto, coloco aqui um texto meu que partilhei no meu facebook sobre as reacções xenófobas relativamente aos refugiados:

Sim, meus caros, também vou abordar o tema dos refugiados, sintam-se à vontade para não ler se já estiverem fartos do tema. Tenho visto muitas pessoas a dissertar sobre o tema como se estivessem a apresentar uma tese de mestrado, tal é a certeza com que falam, como se conhecessem todos os factos e os tivessem examinado ao pormenor durante horas e horas de trabalho de pesquisa. Isto é o que parece na forma, e sobretudo na confiança com que dizem tudo e mais alguma coisa, porque no conteúdo, se formos analisar, não há substância nenhuma, só ideias vagas e pouco elaboradas. Tudo ideias fáceis de se desconstruir com um pouco de Sociologia. O que me leva ao seguinte, se há coisa que retiro deste tema é que cada vez mais acho que o ensino básico (ou até mesmo o primário) devia ter uma introdução à Sociologia. É imperativo combater desde cedo o senso comum e todas as falácias que se aprendem nas primeiras socializações.

O que a minha experiência de aluno de Sociologia no secundário, e depois no ensino superior, me ensina, é que só faz sentido ensinar sociologia aos alunos se for mais cedo ainda, pois no secundário já são muitas as barreiras de senso comum e obstáculos ao conhecimento que impedem o aluno de perceber certas coisas que vão contra tudo o que lhe foi ensinado como sendo verdades universais e noções que dá como factos inquestionáveis e como algo que “toda a gente sabe que é assim”. Com essa idade já é muito provável que sejam mais os que acham tudo chato do que aqueles que conseguem apreender algumas coisas e começar a pensar mais nos temas.

Há certas noções sociológicas que deviam ser obrigatórias na formação social de todos os indivíduos. Seria importante o aluno desde cedo ganhar consciência das desigualdades sociais, da luta de classes, ter noções básicas que permitam distinguir o senso comum do que é conhecimento objectivo da realidade, ter acesso a algumas noções que permitam aprender que pátria e nação são meras construções sociais e ficções que servem mais para criar um grupo “nós” e um grupo “outros” do que outra coisa. Estas noções, e mais algumas, seriam extremamente importantes na construção da identidade do indivíduo e assim, certamente que haveria menos gente ignorante a poluir-me o fb lol. Agora a sério, acho que outro debate pertinente que deverá ser lançado por temas como este, é este da Sociologia enquanto ferramenta essencial na educação de um cidadão… faz sentido? Ou nem por isso? Quem quiser entrar no debate já aqui, está à vontade.

Carlos Walgood Santos

O cravo

cravo

Poema feito no 25 de Abril do ano passado, mas que mantém a sua actualidade.

O Cravo

Era o fim da gravidez da liberdade.
Pela primeira vez, não havia gravidade!
Era um sonho que se paria.
Que se dizia que nunca se pararia.
O pão do povo, nunca se separaria!
Mas eis que um dia, a agonia se daria:

É grave, o cravo foi roubado!
É grave, o cravo foi escravizado!
Agora, o cravo é um mero escravo.
O escravo é adorno do dono.
O cravo está engravatado…
É grave! Ele está engravatado!

O cravo já não é só do povo que ordena.
O cravo está no peito de quem governa.
Ele está em quem obriga o povo a ir embora.
O cravo agora também é de quem explora!
É usado por quem não nos tem respeito.
O cravo foi cravado no nosso peito!

A revolução do cravo se degradou.
É grave, a revolução do cravo encravou!

Carlos Walgood Santos

O povo é que paga

ze-povinho

Já nem me lembrava que tinha esta brincadeira para aqui. Bom, vou partilhar para não ficar a ganhar pó. Brincadeira feita por mim a partir da letra da famosa música “O corpo é que paga”. Esta chama-se “O povo é que paga”.

“Quando o governo….
Quando o governo não tem juízo
E não se esforça como é preciso
O povo é que paga.
O povo é que paga.
É só pagar. É só pagar.
E o Passos a gostar.
Quando o governo não nos liberta
Das frustrações, inibições, toda essa força
Que nos aperta, o povo é que sofre.
As privações, mutilações (lap tap tere …)
Quando a elite está convencida
De que ela é a oitava maravilha
O povo é que sofre
O povo é que sofre
E é só sofrer. E é só sofrer.
E isso dá pra ver.
Quando a pobreza nos dá essa confusão
Já sem saber que hás-de fazer, e já és tudo o que te vem à mão
O povo é que se lixa.
Fica a cair sem resistir (lap tap tere …)
Quando o governo rola pro abismo
Tu não controlas esse nervosismo.
A unha é que paga.
A unha é que paga.
Não páras de roer.
Nem que esteja a doer.
Quando o governo não tem juízo
E ele não sabe mais o que é preciso,
O povo é que paga.
O povo é que paga.
E é só pagar. E é só pagar.
E o Passos a gostar.
E é só sofrer. E é só sofrer.
E isso dá pra ver.
E é só calar. E é só calar.
E o Passos a gostar.
Deix’ó bazar. Deix’ó bazar.
Se não estás a gostar.
Deix´ó gritar. Deix´ó gritar
Se tu estás a libertar.”

Carlos Walgood Santos

Adeus Núcleo

2014-02-22_19.26.08

A partir deste desenho, da minha amiga Maria Roldão, saiu-me este poema:

Adeus Núcleo

Quero dizer adeus, núcleo.
Criaste-me. Deste-me vida.
Mas tiraste-a ao mesmo tempo.
Deste-me vida. A tua vida. Não a minha!
Quero ser eu. Apenas eu, longe do núcleo.
Quero escrever-te mil vezes adeus, núcleo.
Núcleo cria. Núcleo prende. Nunca liberta!
Quem tem que o fazer sou eu. Apenas eu!
Adeus núcleo. Adeus vazio de personalidade.
Adeus tudo o que não sou. Adeus perfeição imitada!

(Vivo esta despedida num crescendo intenso que me faz perder o controlo.
Faz-me perder essa limitação feita da imitação perfeita em que me criaste.)

Quero errar, quero ser todas as cores, as certas e as erradas.
Quero ter em mim todas as dores, as leves e as mais pesadas.
Deixa-me seguir em frente, por mais que não tenha por onde ir.
Deixa-me voar, por mais que das maiores alturas eu possa cair.
Deixa-me… aliás, eu é que te deixo. Quem tem de deixar sou eu.
E assim te deixo, deixando-me ser eu, somente eu. Adeus núcleo.
Este é o meu projecto. Sim, utópico quiçá, mas é o meu projecto.
Errado quiçá, mas meu. Meu! Apenas, e única – mente MEU!
Digo adeus. Faço adeus. Respiro adeus. No adeus mergulho!
É esse adeus que me mantém vivo. Portanto, adeus núcleo!

Carlos Walgood Santos